Conquista de direitos – ativismo e academia

O ativismo surgiu, na minha vida, no último ano da licenciatura, quando se proporcionou seguir uma cadeira sobre mulheres e sociedade. Enveredei depois por um mestrado em estudos sobre género e, em 2002, comecei a trabalhar numa ONG de defesa dos direitos das mulheres. Entusiasmada com a luta coletiva e cheia de vontade de ir para a rua gritar e reclamar direitos iguais, rapidamente percebi quão difícil era mobilizar para ações contra a violência contra as mulheres.

No início deste século, o 25 de novembro não era uma data mediatizada. As primeiras ações de rua nas quais participei na Baixa de Lisboa não reuniam mais do que um punhado de mulheres e os homens não eram ainda vistos como aliados. A ocupação do espaço público com um tema considerado (então) do foro privado, bem como a visibilidade das organizações que defendem os direitos de mulheres e crianças estavam longe de terem a legitimidade que vieram a alcançar na última década. Neste aspeto, o ativismo feminista beneficiou muito com a chegada a Portugal de mulheres latino-americanas e europeias com larga experiência de luta nos seus países.

Profissionalmente, segui um caminho que me foi distanciando destes coletivos, sem nunca, porém, me afastar da causa feminista. As aprendizagens feitas nos vários coletivos formais e informais nos quais participei ao longo de quase uma década foram muito úteis no percurso que trilhei na década seguinte. Consciente das persistentes desigualdades de género, não raras vezes insidiosas, nunca despi a camisola de ativista. Não me juntei a nenhum coletivo nos últimos anos, por ser difícil conciliar compromissos profissionais, parentais e cívicos, mas prossegui com o ativismo a uma escala mais pequena, por vezes mesmo individual.

O ativismo traduz-se numa certa forma de estar na vida e, simultaneamente, no mundo académico. Reflete-se nas escolhas que fazemos diariamente relativamente à forma como escrevemos (a preocupação com a linguagem inclusiva, por exemplo), nos temas aos quais escolhemos dar visibilidade e discutir, nas pessoas que convidamos para integrar os eventos que organizamos, nas autoras que incluímos nas referências bibliográficas dos textos e aulas. Trata-se, em suma, de uma postura de questionamento do viés androcentrico que resulta numa ciência comprometida, qualquer que seja a disciplina ou o objeto de estudo. Nada disto é óbvio ou fácil, ainda há muitas resitências. Há, por isso, que ocupar o espaço de manobra possível nos lugares onde nos movemos, se queremos um dia mudar o paradigma.

Liliana Azevedo

socióloga, investigadora integrada no CIES-Iscte