Da sabedoria ao estigma: o envelhecimento e o idadismo no feminino

O tempo e a passagem dos anos são fatores incontornáveis na nossa vida. O envelhecimento, que deveria ser uma jornada de sabedoria e crescimento, muitas vezes transforma-se numa experiência marcada pelo idadismo. O Idadismo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “refere-se a estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionados às pessoas, com base na sua idade” e as consequências deste tipo de discriminação são graves: regressão da saúde física e mental, menor expectativa de vida, recuperação mais lenta de incapacidade e, até, declínio cognitivo.

No entanto, é indiscutível que a forma como o envelhecimento e o idadismo impactam homens e mulheres diverge substancialmente e é fundamental explorar a razão por trás dessa disparidade e compreender os desafios enfrentados pelas mulheres à medida que avançam nas diversas etapas da vida.

O idadismo está interligado com outras formas de discriminação, nomeadamente o sexismo e o racismo, que representam as três das principais causas de preconceito em todo o mundo. Consequentemente, as mulheres podem enfrentar uma carga adicional de discriminação devido à conjunção da sua idade com o género.

Existem diversas formas de evidenciar essa relação, das quais destaco três. A primeira reflete-se nos padrões de beleza, ou seja, as expetativas sociais em relação à aparência física que, geralmente, divergem entre homens e mulheres, sendo que as mulheres enfrentam uma maior pressão para parecerem jovens, face à expressão “os homens são como o vinho” e “ficam mais charmosos com a idade e com cabelos brancos” enquanto uma mulher com cabelo branco “está a descuidar-se” (um exemplo, em si, de idadismo). A segunda manifesta-se nas expetativas culturais e sociais que, muitas vezes, atribuem às mulheres a maior responsabilidade no cuidado da família, tornando-as mais propensas a uma menor participação cívica, bem como a um aumento da solidão e do isolamento social. A terceira realça que as mulheres mais velhas podem estar sujeitas a um aumento dos riscos de violência de género, que incluem abuso emocional, financeiro e físico.

A diferença na forma como o envelhecimento impacta homens e mulheres torna-se evidente com o envelhecimento da própria população que afeta mais as mulheres devido à sua maior longevidade. Conforme o livro " Como envelhecem os portugueses: Envelhecimento, saúde, idadismo", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pordata, a maioria dos idosos que vivem sozinhos são mulheres, e de acordo com os Censos de 2011 são as mulheres que utilizam mais serviços coletivos de apoio social.

É preciso promover uma sociedade mais justa e igualitária. De forma que as mulheres possam viver a longevidade de uma forma saudável e feliz, sem a pressão social atual que aparece pela combinação do idadismo com o sexismo.

Compreender a interação entre o idadismo, o género e o envelhecimento é fundamental para valorizar e respeitar as contribuições de todas as pessoas, independentemente da sua idade ou género. É urgente o apelo para superar os preconceitos e construir um futuro em que todos possamos envelhecer com dignidade e igualdade.

Elena Duran

 Founder and CEO da 55+