Dar voz – responsavelmente

Uma das missões do jornalismo é dar voz, sobretudo a quem não tem voz. As mulheres – alvo maioritário de violência, daí que desde 1995 as Nações Unidas assinalem, a cada 25 de novembro, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres – não têm tanta voz quanto os homens, como vários inquéritos nacionais e internacionais têm vindo a confirmar, ano após ano.

Ora, quando as mulheres são sujeito de notícia são-no, muitas vezes, enquanto vítimas (consultar o estudo Who makes the news?). Infelizmente, isso decorre de ser um facto que a violência é exercida mais sobre as mulheres. Mas deve levar o jornalismo a refletir sobre a forma como dá voz a essas mulheres. A que tipo de voz damos eco? Que sujeitos de notícia geramos? Retratamos vítimas ou sobreviventes?

O jornalista não deve identificar, direta ou indiretamente, as vítimas de crimes sexuais – esta linha do Código Deontológico não tem ‘mas’. Nem que as próprias vítimas, por alguma razão ilógica, queiram assumir as suas identidades, o jornalismo não deve, e não pode, fazê-lo. Porque será responsável por tudo o que possa vir a acontecer posteriormente.

Simultaneamente, o jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor –esta última parte é algo a ter muito presente em qualquer trabalho com mulheres vítimas e sobreviventes de violência.

Outro ponto importante: o jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função de várias características, nomeadamente sexo e género, mas também instrução, situação económica ou condição social, elementos frequentemente referidos na descrição das vítimas/sobreviventes, por comparação com os agressores.

A verdade é que, por mais bem-intencionado que seja, o jornalismo pode, de facto, resultar numa revitimização das mulheres a quem dá voz.

Para não o fazer, tem de escolher bem as palavras que usa, colocar as mulheres no papel de sujeitos (mulher assassinada por marido em vez de marido mata mulher), contar as suas histórias sem detalhes que possam desocultar as suas identidades ou colocá-las em risco, enquadrar e contextualizar o problema social da violência de género.

Outra coisa que tem sido repetidamente aconselhada por organizações que combatem a violência contra as mulheres é que o jornalismo dê destaque a histórias de resistência e capacitação de sobreviventes, fazendo delas agentes de mudança, e que faça referência às linhas e serviços de apoio existentes. Já alguns órgãos de informação conceituados o fazem. Em Portugal, ainda nenhum. A agência Lusa, através da Comissão para a Igualdade criada recentemente, já concordou com a necessidade de encontrar uma forma de disponibilizar regularmente essa informação nos textos que divulga sobre o tema (que são, como se sabe replicados por muitos outros órgãos de informação). É um bom prenúncio, que temos de tornar, quanto antes, uma realidade.

Sofia Branco

Jornalista na agência Lusa e presidente da Associação Literacia Para os Media e Jornalismo. Encontra-se a fazer doutoramento em Sociologia, na área de estudos feministas