E teu coração, tem salvação?

Tam tum. Tam tum. Tam tum. Coração! Músculo que bombeia o sangue do nosso corpo, ligeiramente guardado mais à esquerda do peito. Órgão importante. Elevado. Promovido. Ganhou status de símbolo do amor. Se estampa um coração, reinvindica sentimento. Amor, paixão, desilusão. Passava um tanto das 5h. Janeiro de país tropical cujas horas de frescor são logo ao amanhecer, quando o sol ainda não deu os ares de todos os teus raios. Mas ali estava quente. O sangue estava quente. Ainda escorria entre os dedos do homem que percorria com um coração nas mãos. O destino, uma igreja. A dona, uma transexual.

O quadrilátero composto pela praça arborizada e florida, um hospital, um monumento em homenagem às mulheres amas de leite, uma igreja: tudo perto da pastelaria da dona daquele coração. “É meu dever salvá-lo do demônio”, dizem testemunhas, seria o susurro daquele homem de vinte e poucos anos. Caminhava, sem pressa, como quem sabe onde quer chegar e está dentro das horas. A Igreja só abre pelas 6h. Foi depositar o coração no altar. Algum movimento já nas ruas. Muito silêncio das pessoas.

Era o coração de Quely, 33 anos. Ainda criança e com nome de menino, ela sentia que seu corpo e sua mente não combinavam. Não dialogavam. Alta, cabelos longos escuros, em processo de transformação, trabalhava na lanchonete da família, junto da mãe e do companheiro. Escolheu viver sua transexualidade e, apesar dos preconceitos dia sim e outro também, seguia esperançosa. Como sonho (também sonhava!), o coração dela pulsava por concluir a transição de sexo no corpo e nos documentos. Não deu tempo. Foi mutilado. Julgado e condenado à pena de morte. Arrancado a sangue frio, quando o dela ainda estava quente. No buraco, a imagem de uma santa. Do assassino não posso dizer sequer o nome. Faz só um mês que ele foi inocentado pela Justiça. Alegou agir sob distúrbio psiquiátrico. 

Gentil e de ‘bom coração’ Quely foi escolhida na véspera para ser assassinada cruelmente ali mesmo na praça da grande metrópole. Campinas, São Paulo, Brasil. Cidade com mais de 1 milhão de habitantes, uma dezena de universidades, pico de ciência e tecnologia no país. Poucos metros da minha casa; uns mil no máximo. Região nobre durante o dia. À noite ganha nuances que a penumbra permite em qualquer canto – como quatro paredes.

Quely foi morta a 21 de janeiro. Antes dela, outras 126 mulheres transexuais tiveram destino igual no intervalo de cinco meses: 21 pessoas por mês executadas pelas mãos de outras pessoas. Já passam de 230 este ano. É aquele recado de ódio enviado às demais trans de que elas não deveriam existir. Os requintes de crueldade estarrecem lideranças de grupos LGBTQI+. Mas não ocorre igual com parcela importante das autoridades judiciais, da sociedade ou de parlamentares. Há 13 projetos de Lei sobre direitos trans parados no parlamento. Descaso. Tanto, que assassinatos são replicados nos mesmos moldes em seguida. É como se homofobia, transfobia e crimes de gênero em geral simplesmente não fossem crimes; ficam banalizados. Para homofóbicos, quase um favor que se presta para a higienização social. Sim, traços de fascismo também.

Desde de 2017, aos janeiros, ocorre a marcha pela visibilidade trans. Uma tentativa de conscientização. Denúncias acumulam-se nas entidades de Direitos Humanos. Conheço uma que está na CDH da ONU: um caso que amarga sete anos de espera por manifestação das Nações Unidas ao desleixo das autoridades brasileiras. A transexual foi tirada da mesa de cirurgia de adequação de sexo após anos de espera para cumprir o protocolo. O serviço foi suspenso e ela foi lançada para o final da fila do outro único hospital que realizava a cirurgia na época: duas ao ano. Deprimida, atentou contra a vida numa tentativa desesperada de matar a dor que sentia. Resolveu lutar. Mas a luta é longa, difícil e árdua. Até hoje, nenhuma resposta das autoridades, sejam brasileiras ou internacionais.

Uma mulher a cada 2 horas morre no Brasil pelas mãos de quem se relaciona intimamente. O crime já foi tipificado na Legislação como Feminicídio. Ativistas querem que seja previsto o crime de homotransfobia, pois mortes como a de Quely teriam pena agravada. Poderiam já ser enquadradas no Feminicídio – pois não ocorreriam se as vítimas não fossem mulheres; não se identificassem como mulheres. Não é tão simples. Para a Justiça, transgêneros não são mulheres. Na lei do Feminicídio diz sexo feminino, não diz gênero. Muitos tratam lésbicas e trans como ‘menos mulheres’. Não é verdade! Enquanto isso ‘as de verdade’ para a Justiça seguem assassinadas sob efeitos do mesmo ódio pelo simples fato de nascerem mulheres. A unidade de todas e todos é o caminho a trilhar para dar cabo desta carnificina.

Vivemos um cenário de guerra. Aliás, isso é uma guerra. Da tal moral e bons costumes contra a realidade dos seres humanos. O conservadorismo homofóbico dita as regras.

Sei bem qual coração precisava ser salvo naquela segunda-feira. Três dias depois corri com o almoço, a aspiração dos quartos, para estar na manifestação pela prisão do assassino de Quely. Era mais um crime. Concreto. De uma vida que pulsava. Que teve o direito de nascer e tinha o de continuar viva. Não cabia a ninguém decidir por quanto tempo, se era pura, impura ou uma evolução natural da humanidade.

Ah a humanindad! Já errou tanto. Já condenou e crucificou, matou com gás, na fogueira, com bombas. Depois pediu desculpas. Não. Não aceitamos mais desculpas. Queremos ações. Políticas públicas. Instituições agindo. Queremos países irmãos mobilizados. Não há fronteiras nem geografia para o tal amor ao próximo, à próxima, a toda gente. Mesmo distantes, estamos juntas e juntos pelo direito de viver. O sangue que pulsa lá, pulsa cá. O corte que dói lá, dói aqui, dói aí. Ou nos salvamos a toda gente, ou ninguém se salvará.

Ninguém de nós é nem mais, nem menos. Qualquer coração ir parar em ‘oferta’ num altar é inaceitável. Viva a mãe natureza! Toda forma de ser vale respeito. Todo jeito de ser mulher é o jeito certo. Toda forma de amor é digna. Sim, amar em tempos de ódio é revolução. Revolucionemos!

Solange Celere