“Joga pedra na Geni (1)”: a gorda

A gorda julga que tem direito a ser feliz, apesar de gorda, mas não tem.
A gorda incomoda… ocupa tanto espaço como o gordo, mas em gorda é pior. Também é pior uma mulher que se embebeda do que um homem etilizado que vai de rojo pelo chão. São coisas que não estão escritas mas que se sabe ser assim. É o que acontece com o espaço que o gordo ocupa… é melhor para o meio ambiente do que o da gorda. E nós somos ambientalistas. O gordo projecta a barriga no ar e a barriga não se senta nos transportes públicos; já a gorda paga o selo de um único passe social e ocupa espaço e meio no banco. Quem compensa o meio selo que fica por pagar? A gorda não, não quer ser discriminada, mas discrimina porque, nos transportes, ainda que se ponha de lado, toda torta, para deixar espaço suficiente para dois gordos que se venham a sentar, visualmente, a gorda já ocupou mais do que devia – a gorda é como os desastres de automóvel que convidam a parar para repudiar a tragédia. A gorda tem muitos recantos e detalhes: tem regueifas junto aos joelhos – duas rosáceas em torres de gordura que tremelicam com o movimento, mas não são panacota – os tornozelos em forma de troncos; peitaça em prateleira para enciclopédia; montes e vales ensombrados a formar os deformados estômago e barriga, e uma imensa pera, que não é Rocha, na parte funda das costas. A gorda não tem traseiro ou rabo… tem cu ou bunda. Imensa e majestática como Eça disse da “imensa ministra da Baviera”.

Quando a gorda, ainda assim, julga que é feliz, é porque é parva, inconsciente ou estúpida. Ou as três coisas ao mesmo tempo. Em vez de neurónios tem bolas de sebo no cérebro que a impedem de perceber que, se é gorda, não pode ser feliz. Não pode gostar de si, nem esperar que a apreciem. Na escola, vai ser a última a ser escolhida para a equipa de basquetebol e para o grupo de poesia. O que pode a gorda saber de poesia? Se a gorda é gorda é porque é lambareira, descontrolada, infantil e pecaminosa. Alambaza-se com a comida que dava para um regimento de bons garfos. A gorda é o fanqueiro inteiro sem contenção.

A gorda não sabe fechar a boca, abstendo-se de comida ou para controlar a respiração que, por ser gorda, é ofegante e nojenta (oxigénio cruzado com barulheira e suor).

A gorda tem ainda a mania de sorrir, oferecendo-se em imolação por ser gorda, só para ver se é acolhida, apesar de ser gorda. Mas até quando sorri, a gorda é gorda: as bochechas sobem ligeiramente na cara – não muito porque o unto ali também pesa – e, quando o sorriso termina, aquelas badanas de chicha descem descontroladas e a gorda fica com focinho de bulldog. No cão, a coisa tem nobreza, mas na gorda não.

A gorda é avacalhada mesmo que não faça mú; descomposta… não fecha as pernas quando se senta e, se anda de saias porque as calças a apertam, inevitavelmente exibe o cuecão. E quem é que quer entrever o cuecão de uma gorda? A gorda é burra. Se não fosse burra não era gorda… porque só uma burra quer ser gorda. E ser gorda nem devia poder ser opção. A gorda é baleia… vem à superfície de vez em quando mas submerge por longos períodos, que são aqueles em que não causa impacto visual. A gorda é ursa: come o que lhe passa pela frente e tem mão ligeira para a comida dos outros.

A gorda está talhada para o abandono… ninguém pode com aqueles quilos de problemas. A gorda tem obrigação de encaixar as piadas de gordas. E por que não? Quem diz a verdade não merece castigo e, se a gorda é gorda, ‘bora carregar na gorda… ‘bora espalmar a gorda.

Quando lhe dá para a militância, a gorda é ainda mais ridícula: quer reclamar, não lhe bastando os defeitos de ser gorda e militante. E, assim, a gorda não quer ser assediada porque é gorda, ou porque é mulher, ou porque é uma mulher gorda; a gorda acha que pode reclamar espaço nos assentos dos transportes; lojas baratas de pronto a vestir que lhe caiba; a gorda quer ter direito à saúde, quer ser observada na consulta como se de uma magra se tratasse, para que a sua doença, que pode não ser a gordura, não seja mascarada no olhar do médico porque ela é gorda. A gorda quer… a gorda só quer igualdade de direitos… mesmo sendo gorda. A gorda não quer ser violentada por ser gorda. A gorda quer fazer um coming out, que não é bem como os outros, porque toda a gente sabe que ela é gorda, mas quer dizer em voz alta que é o que é. E que ser gorda não pode ser vergonha. Ai, gorda, cuidado… olha a pedra da Geni…

(1) Da canção de Chico Buarque, Geni e o Zepelim

Helena Amaral