Ser Mulher Brasileira em Portugal e a Luta pela Igualdade

Quando falámos em comunidades imigrantes em Portugal, a comunidade brasileira é
a maior, sendo as mulheres também maioria. Aos estereótipos de género, para essas mulheres somam-se muitos outros, em sua maioria ligados à “brasilidade” e a um corpo disponível, hipersexualizado, etc. Ao analisarmos os estereótipos relacionados à mulher imigrante de nacionalidade brasileira, além da desigualdade de género, acresce os relacionados à sexualização e ao trabalho sexual. Além de muitos outros associados à tropicalidade e aos resquícios coloniais.

Conceptualmente, os estereótipos são pré-conceitos e categorizações criadas de forma generalizada. O conceito envolve símbolos, significados, imagens e construções sociais atribuídas às pessoas. No quotidiano das mulheres imigrantes existem situações flagrantes de discriminação que assumem destaque quando identificados os problemas de adaptação no país. Problemas no acesso ao arrendamento de casas, assédio sexual no local de trabalho e na via pública, maior vulnerabilidade para a situações de desemprego e exploração laboral e desqualificação profissional são elementos que acrescentam riscos para a mulher brasileira no seu projeto de vida fora do seu país de origem. Isto também afeta a sua integração, sentimento de pertença e bem-estar e como consequência, muitas vezes, não é assegurado direitos fundamentais.

Quando falamos de mulheres e feminismo, não podemos desconsiderar o fato de que os estereótipos de género são atribuídos entre as mulheres de forma de diferente. O conceito de interseccionalidade veio nos elucidar sobre as diferentes formas de opressão que as mulheres vivenciam, a depender de fatores clássicos como a classe social, a etnia/raça e o género. Ora, substancialmente as mulheres são diferentes e sofrem opressões diferentes, e os estereótipos de género favorecem e/ou intensificam essas opressões.

Dentro desse contexto estão as mulheres imigrantes brasileiras, que sofrem vários tipos de estereotipação por ser mulher, brasileira, imigrante, negra, entre outras. A construção histórica e social da “mulher brasileira” é fruto de um processo colonial, de violência, nomeadamente racista e machista, que inicialmente dizimou a população indígena e depois foi marcado por um processo de miscigenação que subjugou as mulheres escravizadas vindas de África para o Brasil. Sexualização dos corpos e violações, em grande parte, deram fruto às “mulatas” nascidas das relações entre as mulheres africanas escravizadas e os homens brancos portugueses. Essa carga histórica não tem como ser negligenciada, pois além da violência expressa, a relação entre metrópole e colônia, que era uma relação de poder, também foi manifesta no corpo das mulheres que viviam no território que passaria a se chamar Brasil. Se explorava a terra, o ouro e as riquezas naturais, e também se explorava o “corpo colonial” das mulheres indígenas e escravizadas.

A “mulher brasileira” traz a carga desse processo histórico que até hoje faz parte do imaginário português, e que o Brasil não rompeu, pelo contrário, reforçou e exportou. O imaginário de parte da sociedade portuguesa ainda é permeado por esses estereótipos, e as brasileiras que migram para Portugal até hoje sofrem esse estigma. O fatídico episódio das “Mães de Bragança” revela como esses estereótipos geram múltiplas discriminações.

A compreensão das vivências de discriminação e do impacto negativo no processo de integração na comunidade portuguesa das mulheres imigrantes brasileiras são fundamentais para a reflexão das políticas públicas voltadas para as mulheres imigrantes em Portugal. É fundamental que essa discussão seja feita numa perspectiva interseccional e que considere as intersecções de género, estatuto migratório, etnia/raça, nacionalidade e classe social.

Não existe igualdade e justiça social se a luta não for para todas as mulheres!

Cynthia de Paula

Ana Paula Costa