VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA ~ A violência (ainda) esquecida pelo Feminismo

Já perdi a conta às histórias de parto que ouvi, de forma mais ou menos voluntária, contada de forma mais ou menos informal. Parece que as mulheres gostam de falar sobre este assunto. E por mais tempo que tenha passado, a verdade é que não se esquecem. O que se passou, quem estava lá, como se sentiram. Com pena admito que a grande maioria das histórias têm em algum ponto (ou grande parte) do enredo, exemplos de falta de respeito, coisas que a mulher não sabia o que eram, “chatices” ou mesmo trauma. Quase todas as histórias têm traços de violência obstétrica. Algumas ainda choram ao contar. Outras sentem-se zangadas. Outras encolhem os ombros e acrescentam um apressado “pronto, teve de ser.” A culpa e a ideia de que de alguma forma elas é que não estiveram “à altura” aparece em comentários como eu não dilatei. Ou eu não estava a saber fazer força suficiente nem no sítio certo. Como em quase todas as formas mais perversas de violência, a vítima culpa-se, ou por não ter sabido o que fazer ou porque apesar de conseguir identificar que o que lhe estavam a fazer não era certo, na altura não teve forças para “lutar”, “dizer não”, e não fez queixa porque não valia a pena, só queria esquecer.

Mas afinal o que é a Violência Obstétrica?

Violência Obstétrica é a violência institucional exercida sobre as mulheres no contexto da assistência à gravidez, parto e pós-parto. Inclui: recusa de tratamento, negligência em relação às necessidades e queixas da mulher, humilhações verbais, violência física, práticas invasivas, uso desnecessário de medicação, intervenções médicas forçadas e não consentidas, desumanização ou tratamento rude. A violência obstétrica não é exclusiva a mulheres que têm partos complexos. Nem às que têm partos hospitalares. Nem às que têm gravidezes classificadas como sendo de risco. E pode acontecer tanto no sistema público como no privado. As cicatrizes físicas e emocionais que ficam são muitas, e profundas.

O questionário realizado pela Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (www.associacaogravidezeparto.pt) , intitulado “Experiências de Parto em Portugal 2012-2015”, veio demostrar que mais de um décimo das mulheres refere que a sua experiência de parto influenciou de forma negativa a sua autoestima.

244 mulheres (7.2%) referiu que o parto influenciou de forma negativa a sua relação com o/a parceiro/a.

476 mulheres (14.1%) afirma que a sua vontade de ter filhos no futuro foi afetada de forma negativa pela sua experiência de parto.

A investigação indica que as experiências de parto acompanham a mulher ao longo da vida com impacto em áreas importantes como a autoestima e as relações familiares, particularmente entre ela o/a parceiro/a e ela e o bebé (Lundgren, I. 2002, p. 21).

A vagina no parto desrespeitado

Podia aqui fazer uma lista exaustiva das várias intervenções desnecessárias e nada isentas de risco a que as mulheres em Portugal ainda são sujeitas de forma rotineira durante a sua gravidez e parto. No entanto, gostava “apenas” de me focar no que acontece à vagina das mulheres durante esse período. Comecemos pela episiotomia. A episiotomia é um corte intramuscular que é feito na altura da expulsão do bebé com o (suposto) intuito de alargar o canal de parto. A Organização Mundial de Saúde retirou em 2018 a sua anterior percentagem de recomendação de 15% de episiotomia nas suas Recomendações Intraparto para uma Experiência Positiva de Nascimento (https://www.who.int/reproductivehealth/publications/intrapartum-care-guidelines/en/ ). Não é agora recomendada em circunstância alguma. No entanto, a taxa de episiotomia em Portugal ronda os 70%, e é das mais altos da Europa. Só o Chipre, a Polónia e a Roménia nos acompanham nestes números vergonhosos. Serão as vaginas portuguesas assim tão “incompetentes”? Não. De todo. A verdade é que esta é uma intervenção que demonstra a cultura na pressa no parto. E uma consequência de um parto já de si muito “mexido” com intervenções desnecessárias, feita numa mulher que está deitada de costas, provavelmente com as pernas para cima (posição que torna a sua bacia mais estreita e o seu cóxis menos móvel, o que dificulta e muito a expulsão do bebé), mas esta é a posição que dá mais jeito aos profissionais. A episiotomia está associada a maior dificuldade na recuperação pós-parto, aumenta o risco de complicações nesse período, e afeta a autoestima da mulher, dificultando entre outras coisas, o retorno à vida sexual. Não há evidência de que a episiotomia traga melhores resultados clínicos, nem para a mãe, nem para o bebé. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5449575/ )

Outro exemplo claro de violência e desrespeito são os “toques”. “Toque” é o termo corrente para denominar o exame vaginal, feito muitas vezes apenas por rotina às mulheres, no contexto da assistência à gravidez e ao parto. O/a profissional de saúde insere dois dedos dentro da vagina da mulher com o intuito de determinar o grau de dilatação do colo do útero, se está apagado ou não, a posição do bebé, e o quão fundo está em relação à pélvis da mãe. No entanto, a verdade é que o exame vaginal não permite adivinhar o futuro. Apenas define como está o colo do útero naquele. preciso. momento. Para além do mais, não há evidência de que os toques vaginais produzam melhores resultados quer para mães, quer para bebés (https://www.cochrane.org/CD010088/routine-vaginal-examinations-in-labour ) e até já se chegou à conclusão de que a dilatação do colo do útero durante o parto fisiológico é algo impossível de se prever, pois não segue uma dinâmica linear (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26230291 ). Muitas mulheres sentem que os toques vaginais são invasivos, desconfortáveis, ou mesmo dolorosos. E será que já parámos para pensar se aquela mulher tem um historial de abuso sexual, e que este “toque” pode desencadear memórias traumatizantes? Tem ainda alguns riscos associados, nomeadamente, a introdução de infeção no útero e/ou no bebé. Em nenhum outro contexto da vida, é considerado normal que alguém insira os dedos dentro da vagina de uma mulher sem esta saber para quê, porquê e o consentir. Em qualquer outra situação, isso seria considerado uma violação. Porque é que isso muda quando ela está grávida ou em trabalho de parto? Um sistema onde a vagina das mulheres é rotineiramente cortada e “tocada” sem evidência científica, sem que esta sabe que pode recusar, é um Sistema doente.

Taxa de mortalidade materna – os números já falam por si

Portugal sempre se escudou e gabou a sua baixa mortalidade perinatal para justificar o facto das nossas taxas de intervenção serem quase todas bastante acima das médias Europeias e das recomendações da Organização Mundial de Saúde. No entanto, segundo dados da Pordata a taxa de mortalidade materna tem vindo a registar uma subida consistente e acentuada (https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+mortalidade+materna-619 ). Somos atualmente quarto pior país da Europa no que toca à mortalidade materna. Agora que os números falam por si, talvez esteja na altura de perguntar “a sério” porque é que as mulheres portuguesas estão a morrer no parto.

Feminismo e os Direitos no Parto

Porque é que então, sendo a experiência de gravidez, parto algo que tantas, tantas mulheres experienciam, este parece ser um terreno esquecido pelo feminismo? A meu ver, esta á a questão feminista por excelência: grande parte das descriminações a que as mulheres estão sujeitas advém desta sua capacidade de gestar, parir e nutrir uma criança. Mesmo que a mulher esteja focada noutra direção, e ter filhos não faça parte dos seus planos. Está na hora de abordarmos estas problemáticas pela lente de um feminismo astuto, que não aceita que a violência seja rotina pois “o médico é que sabe”. (Haverá coisa mais Patriarcal do que isto?)

É verdade que esta luta pelos direitos das mulheres no parto foi durante muito tempo, enquadrada apenas dentro da retórica do parto “natural”. Principalmente por isso, muitas mulheres não se sentem/sentiram representadas, e rejeitam a ideia de que terem direitos é não poder escolher levar a epidural, ou quererem uma cesariana eletiva. Compreendo a sua rejeição. A verdade é que não é mesmo por aí. Os direitos humanos de uma mulher durante a sua gravidez, parto e pós-parto, devem protegê-la mesmo que esta tenha necessidades complexas; independentemente das Escolhas que queira fazer; independentemente do parto seguir o curso esperado e não estão sujeitos a nenhuma ideologia. E por isso e por muito mais, precisamos de nos unir. De estarmos todas juntas nesta missão. A mulher que quer parir de forma completamente fisiológica, sem intervenções desnecessárias e “drogas”. A mulher que quer uma cesariana. A mulher que sabe que quer amamentar. A mulher que quer dar biberão. E todos as sombras de cinzento que ficam entre estes dois exemplos.

Temos de repensar o nosso modelo de cuidados, que atualmente tanto desempodera, desrespeita, infantiliza e magoa as nossas mulheres. Temos de passar a um modelo em que seja claro que a sua dignidade, autonomia e auto-determinação não ficam esquecidas quando esta engravida ou está em trabalho de parto. As mulheres viverão com as consequências do que lhes é feito no parto para o resto da sua vida. Não podemos permitir que um dos dias mais significativos da sua vida, se torne num dia de pesadelo. Vamos partir do princípio de que as mulheres sabem o que é melhor para si. As mulheres são adultas, com capacidade e inteligência para saberem o que querem ou não que aconteça com o seu corpo. Não são uma mera incubadora daquele bebé.

A lei e a evidência científica já estão alinhadas com a ideia de que o respeito é essencial e obrigatório, que as mulheres devem ser envolvidas nas tomadas de decisão, e que são soberanas no que toca ao que acontece com o seu corpo. Então…o que falta? Falta mudar a cultura vigente do parto. Falta um Sistema que informa as mulheres da real necessidade de cada intervenção sem omissões ou informação tendenciosa. E que nos apoiemos todas umas às outras cada vez mais. Longe da frase “tudo o que importa é um bebé saudável”, é preciso dizer às mulheres “tens razão. O que fizeram contigo não está certo. Eu acredito em ti.”

Porque o trauma e a vergonha dissipam-se, quando as histórias são contadas em lugares seguros e livres de julgamento.

Sara do Vale