Machismo, racismo, xenofobia: a multidimensionalidade da opressão

As desigualdades são estruturantes para o capitalismo, delas depende a sua sobrevivência. Desigualdades essas que não são naturais, decorrem de construções de cariz social, económico e cultural que estratificam as pessoas. Assim se estabelecem relações de poder que subjugam aquelas a quem é reconhecido estatuto inferior. O machismo, o racismo, a xenofobia servem o propósito de perpetuar as desigualdades. A ideia de superioridade justifica a exploração laboral, mas também outras formas de dominação e violência que recaem sobre as mulheres, sobre as pessoas racializadas, sobre as migrantes.

O racismo estrutural em Portugal, herança do seu passado colonialista, traduz-se em desigualdades de toda a ordem. Ainda que não detenhamos os dados étnico-raciais necessários para aferir a verdadeira dimensão do problema, as mais conceituadas organizações nacionais e internacionais alertam que as pessoas racializadas continuam a ser alvo de todo o tipo de discriminações, seja na educação, emprego, saúde, justiça, entre outros setores. A violência racista, e especialmente aquela que é perpetuada pelas próprias forças de segurança, é uma das manifestações mais atrozes deste flagelo. E continua a matar em Portugal.

Às pessoas migrantes é negado o direito a ter direitos. Respondem às demandas da economia nacional, engordam os cofres públicos, mas continuam a ser estigmatizadas e sujeitas a procedimentos que as criminalizam e fragilizam. A par de não consagrar o direito fundamental à imigração, a legislação nacional não é cumprida pelo próprio Estado português, e as migrantes ficam à mercê de patrões sem escrúpulos e máfias que as condenam a formas de escravatura moderna, despojando-as de toda a dignidade.

As vivências e as condições no feminino são diversas e estão em permanente mutação. Quem se constrói mulher, quem se faz mulher, é alvo de desigualdades e discriminações múltiplas, o que nos convoca a conhecer e combater a opressão na sua multidimensionalidade. No contexto de uma sociedade patriarcal e eurocêntrica, as mulheres, e particularmente, as mulheres racializadas e/ou migrantes, são submetidas a processos de silenciamento e invisibilização, que alimentam todo o tipo de abusos e atropelos aos direitos mais básicos. Impedidas de falar e de ser escutadas, são remetidas a um lugar de não sujeito. Potenciar e garantir que as suas vozes têm eco, que se multiplicam, combater todas as manifestações do capitalismo, articulando lutas e esforços, é o caminho para libertar as mulheres das violências estruturais reproduzidas na sociedade.

Mariana Carneiro

Socióloga do trabalho, especialista em Direito do Trabalho, Mestranda em História Contemporânea, ativista dos direitos dos imigrantes