Numa guerra, será que sou cigarra ou sou formiga?

(Ensaio feminista sobre mulheres e guerra)

Estávamos todas sentadas à sombra de um grande cajueiro. O dia estava muito quente, muito quente mesmo. Eram umas 11h da manhã. A hora do maior calor. Levámos água e bolachas pois sabíamos que estaríamos dispostas a conversar por várias horas. Éramos todas muito diferentes: camponesas, deslocadas, professoras, trabalhadoras, pesquisadoras, activistas, artesãs, vendedeiras; mais velhas, mais novas, umas mães, outras não, algumas avós; dizemos obrigada de muitas maneiras: ndilombolela, kihosukuro, khanimambu, asante; algumas gostam de cobrir a cabeça com capulana, outras usam chapéu, outras deixam o cabelo ao vento cortado curtinho, amarrado em tranças ou arranjado com mechas longas. Importaram pouco as nossas diferenças à sombra do grande cajueiro naquele dia. Pelo menos pareceu-me assim. Todas éramos formigas. Pelo menos, pensava eu, que éramos todas formigas. Mas agora pergunto-me muitas vezes: será que eu sou formiga?

Todas nós queríamos falar de nós e das nossas vidas que afinal se cruzam com as vidas de muitas outras mulheres que nós conhecemos e, até, com a vida de outras que nós nunca vimos mas sentimos que fazem parte dessa nossa irmandade que os sofrimentos comuns parecem engendrar. No início, a vontade de falar era tanta que nos atrapalhámos um pouco umas às outras mas, rapidamente, sobrevieram os silêncios, cada vez mais profundos, dependendo da intensidade da dor. Parecia, como nos contou a Latifa (e claro que este nome foi arranjado agora), que estávamos num buraco de fogo onde tínhamos sido condenadas a morrer. Mas de cada vez que uma de nós falava, era como a saliva do passarinho, que voava perto, e que caía no fogo e o ajudava a apagar. Percebemos que não só a nossa condenação estava condenada a não acontecer como de pingo em pingo de saliva fomos dominando o fogo até que ele se extinguiu.

O meu objectivo para esta crónica era escrever um texto sobre mulheres e guerra. Porém da minha cabeça não saem nem as imagens, nem os cheiros, nem o calor, e muito menos as palavras de todas nesse final de manhã, lá em Mahate. E não me saem da cabeça porque tudo aquilo fez e faz muito mais sentido para mim do que muitos dos artigos publicados que leio e que, confesso, até gosto muito. Sou kakata: não deito nada fora, por princípio. Mas confesso que há coisas que me entusiasmam muito mais do que outras. Falámos de coisas muito tristes mas que precisam de ser faladas. Falámos de como matam as mulheres cortando-lhes as mamas, abrindo os seus ventres para lhes retirarem os fetos. Falámos de como as raptam para as obrigar a ser espias, a carregar as armas, a cozinhar, a fazer a machamba, a atender um batalhão inteiro por dia.

Não preciso de explicar o que isso significa. Para elas o pudor no uso das palavras é muito importante, é sinal de respeito. Então não quero impor a crueza das palavras com que costumamos designar essas coisas. Falámos de como as dividem entre ‘Arroz Lulu’ porque são boas para comer, e as escolhem para servir como esposas de comandantes – mais uma vez, o uso das palavras é uma forma de diminuir o trauma e a vergonha. Tenham isso em atenção enquanto lerem estas palavras – e as outras, consideradas feias, são ‘mapira’ e só servem para trabalhar. Há lá coisa mais cruel do que estas qualificações? Falámos das mães que se recusam a amamentar as crianças nascidas dos estupros. Falámos do pavor de ver entrar em casa um filho que se sabe ter matado ou ter sido obrigado a comer a carne e a beber sangue humanos e que nunca mais recuperará a paz nem o sono. Chorámos quando falámos das mães que se entregam aos insurgentes para protegerem as filhas dos estupros. Falámos e chorámos dessas e de muitas outras coisas especialmente da forma como as crianças e as/os jovens estão a ser ensinadas/os a pensar que a resolução de todos os problemas se consegue com fardas, armas, obediência sem réplica e violência; os mega-projectos extractivistas e a cobiça nacional e internacional que lhes permitem transformar montanhas em pedra triturada para fazer cimento, minas em campos de concentração, campos de cultivo em crateras, bases logísticas em caminhos do mar fechados para os pescadores, as florestas em campos de refugiadas/os, as chamadas IDPs – Internal Displaced People – e assim por diante. Falámos de como a primeira vítima da guerra é a verdade, de como a guerra não terminou, só parou um pouco; como Mocímboa da Praia, não importa a propaganda, está em silêncio, não se ouve nem uma galinha, nem um cabrito e as tropas ruandesas estão encostadas à praia. Falámos de que é preciso negociar para chegar à paz e de que as Forças de Armadas de Moçambique conhecem quem está do outro lado e até, em alguns momentos, já fizeram acordos com eles para dividir despojos, territórios e evitar mútuas emboscadas. Falámos que sim, a guerra tem rostos e nomes que são conhecidos, mas parece que não há vontade de acabar com ela. Falámos de como esta guerra não é religiosa e de como o capitalismo extractivista tem sido a medida de todas as coisas e de como a ganância destrói o país e a vida das pessoas e inventa a ideia de que para se ser alguém se tem que ter muito dinheiro, a qualquer preço. Falámos de como soldados e polícias roubam, matam, torturam, estupram e de como é ter medo de falar, de denunciar porque chega lá com dinheiro na mão e o tribunal fecha as portas e não acontece nada.

A nossa conversa foi carregada de emoções, informação, reflexão e conhecimentos. As vozes, foram autorais e firmes, usando as suas próprias palavras sem nunca se desconectarem dos corpos, das comunidades e dos territórios. Não correu uma única lágrima porque a força de estarmos juntas e sabermos que temos razão foi muito maior do que a ameaça do bufo que passou de mota, vezes sem fim, pelo caminho à beira da sombra onde estávamos sentadas para ir relatar às autoridades a nossa subversão: conversar e dizer alto e bom som o que sabemos, pensamos e queremos que se saiba sobre esta guerra maldita.

Há momentos que são como os raios de um relâmpago, breves, mas muito intensos, em que as nossas vidas, tão diferentes, se cruzam, se juntam e os corações parecem bater ao mesmo compasso. Mas é preciso dizer quem sou eu naquela sombra, de onde venho e de onde o meu coração bate com o delas. É que eu que vivo num mar de privilégios e posso vir-me embora enquanto elas continuam lá, no calor e no fogo das balas e das porradas.

Passaram-se uns dias e o cenário mudou radicalmente. Estávamos numa sala de conferências sentadas em cadeiras com mesas à nossa frente, cobertas com belas capulanas, tínhamos ar condicionado, bombons, água mineral à disposição e rede de internet. Computadores ligados, smartphones sempre na mão prontos a responder às mensagens do whatsapp ou do instagram que estão sempre a entrar, tudo menos urgentes e tudo menos importantes. Recitaram-se todas as ladainhas do género, revisitou-se o repertório aprendido com a cooperação para o desenvolvimento sobre os direitos humanos das mulheres enquanto muitas partilhavam fotografias dos últimos modelos de roupa que é preciso comprar para as festas do fim do ano.

Certeira foi a observação final que ouvi em modo de desalentada impaciência: isto para mim é o feminismo das cigarras. Ela, a que falou assim, tinha estado à sombra do cajueiro comigo. Eu cá fiquei a perguntar-me, e eu? Não sou eu uma cigarra?  

Mas eu quero é ser uma formiga ou então a saliva do passarinho que voa sobre o buraco de fogo.

 

Teresa Cunha

Socióloga, Investigadora da área dos feminismos e pós-colonialismos. Professora e ativista. Agraciada em 2017 com a Ordem de Timor-Leste pelo Presidene da República Democrática de Timor-Leste.

PS: Escrevo com a Norma Ortográfica Moçambicana