O feminismo e a interseccionalidade

A violência contra as mulheres manifesta-se de diversas formas e nos vários espaços das suas vidas. Crescemos e descobrimo-nos mulheres, algumas, apenas mulheres, outras, mulheres e negras. A identidade é algo que vamos construindo, e que é sempre afetada pela experiência de vida que cada uma tem.

Com bell hooks aprendemos que para as mulheres negras não existe uma separação entre o machismo e o racismo, que a luta feminista é também a luta anti-racista, e que ambas são também a luta contra um sistema capitalista que perpetua estas injustiças. E também, que muito facilmente foram esquecidas as mulheres negras na história, e a sua conquista de direitos foi tantas vezes secundarizada.

O progresso feminista obedeceu muitas vezes à mesma lógica dos progressos sociais, primeiro as pessoas brancas e só depois as pessoas negras, muitas vezes vimos a reprodução do patriarcado nos movimentos pelos direitos das mulheres.

Em Portugal, torna-se ainda mais grave perceber o abandono das mulheres negras, quando não existe nenhum marcador de pertença étnico-racial nos censos. Algumas informações vão surgindo, por estudos e pesquisas que nos mostram acima de tudo a necessidade gritante de informação. Não é possível avaliarmos o impacto do patriarcado e do racismo nas políticas públicas que se transportam para a vida das mulheres.

Em países como o Brasil ou os Estados Unidos é possível saber, através de dados estatísticos, que os trabalhos mais precários e mais vulneráveis pertencem às mulheres negras. Replicando modelos coloniais e opressores onde trabalhos como o serviço doméstico continuam com uma sobre representação destas mulheres.

Percebemos ainda a falta de informação que existe, quando falamos sobre a violência obstétrica e percebemos, sem sombra de dúvida, a invisibilização que as mulheres negras enfrentam. São consideradas mais fortes, mais resilientes, mais tolerantes à dor, perpetuando a violência médica que foi exercida sobre os corpos negros em nome da investigação e do desenvolvimento na saúde. É desapontante que a desumanização que lhes foi imposta perdure hoje e continue a justificar o desrespeito pelos seus direitos.

De acordo com o estudo feito pela SAMANE – Associação saúde das mães negras e racializadas em Portugal, mais de um quinto das mulheres negras sofreu violência obstétrica. Os dados dizem-nos ainda que 10,7% das mulheres não se sentiram respeitadas pelos profissionais de saúde durante a gravidez, 33,5% sentiram-se mesmo humilhadas e 41,1% negligenciadas.

O feminismo, enquanto movimento que luta pelos direitos de todas as mulheres, tem o dever de ser interseccional, de lutar por todas as mulheres, de ser contra todas as formas de opressão sobre qualquer mulher e de nunca deixar nenhuma mulher para trás. Devemos lutar de acordo com o que nos ensinou Audre Lorde: “Não seremos livres, até todas sermos livres.”

Aliyah Bhikha

Estudante de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Dirigente estudantil. Membro do coletivo As Feministas e ativista anti-racista.