Os nossos nomes

Chama-se Amina, Oksana, Niki, Sanyia, Fatu.

Enquanto casa havia, levantava o corpo pela manhã, enchia-a com os aromas delicados: leite, café preto, lima, erva-príncipe, mamoa, fruta-pão, hibisco, menta, fubá.

Conduzia os passos em sentido circular, como um abraço desenhado no chão, buscando a água e os sons agudos com que nomeava sítios familiares, os de aprender a fala erguida, os de ensinar os filhos a crescer em paz. 

Enquanto casa havia, o plural reinventava os dias, comuns e excepcionais, vizinhança onde dor e alegria se repartiam como ecos amorosos, diálogos prolongados noite fora, em conversa com os sonhos.

Até que a casa se desmoronou.

Cada uma, então, nunca perdida, agarrou nos filhos e numa trouxa breve, conduziu os passos rápidos em sentido linear.

Passos acossados, linhas sinuosas através de cacos, estrondos, gritos, desertos, crateras, ventanias, arribas, desfiladeiros, cursos de água, sombras, fantasmas, insultos, rezas, imprecações, silvos, pedras, muros, crostas, estilhaços.

Cada uma das mulheres a própria casa móvel, aberta aos filhos e a todos os que se alimentam do seu corpo macerado, nunca desatento. Cada uma em busca de chão onde o aroma do sangue se afaste e o do leite se dilua num copo de chá – menta, hibisco, lima – tomado numa roda-abraço, entre os risos e os passos dançantes das crianças.

Abrigo, chão, casa do corpo, casa humana, casa humana comum, troca entre mãos dispostas a acolher em vez de repelir, reparando na diferença que enlaça e anuncia a vida, nunca naquela que fere, a própria ferida.

Assim essa mulher chamada Kelli, Mya, Sahana, Mariama, é uma pujança, irmã de cada uma de nós, as que buscamos a justa casa para o justo anseio, para o justo mundo.

Julieta Monginho

Escritora. Autora de vários romances entre os quais Os Filhos de K. (2015, finalista dos Prémios Fernando Namora e PEN Clube Português), A Terceira Mãe (2008, Grande Prémio de Romance e Novela da APE) e Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio (2022, Grande Prémio de Romance e Novela da APE)