VIRGÍNIA MOURA

1 – Nome conhecido / Nome civil

Virgínia Moura / Virgínia Faria de Moura (Maria Selma: pseudónimo)

 

2 – Local, data de nascimento / Local, data de morte

Guimarães (S. Martinho do Conde), 19 de julho de 1915 / Porto, 19 de abril de 1998

 

3 – Profissão / cargo / função / ocupação

Engenheira civil, política, ativista feminista

 

4 – Relação com organizações feministas

Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas[1]

Comissão Eleitoral Feminina da secção do Porto: apoio à candidatura presidencial do general Norton de Matos (1949)

5 – Eventos feministas em que participou / foi nomeada para participar

 

6 – Publicações de teor feminista (autoria, entrevistas)

“Cartas a uma mulher moderna”, publicação dos anos 40 onde apela à participação das mulheres na sua própria emancipação[2].

7 – Sociabilidades, correspondência com outras feministas

Maria Isabel Aboim Inglez

Maria Lamas

Irene Lisboa

António Lobão Vital (marido)

Raul de Castro

Hernâni Cidade

Agostinho da Silva

Vitorino Nemésio

8 – Manifestações de reconhecimento público (incluindo toponímia), prémios, condecorações

Surge na toponímia dos distritos do Porto, Lisboa e Setúbal: Rua Virgínia de Moura 4350-404 Porto/Porto; Rua Engenheira Virgínia de Moura 4435-482 Rio Tinto/Gondomar/Porto; Rua Engenheira Virgínia de Moura 4815-056 Conde/Guimarães/Porto; Rua Virgínia Moura 2625-727 Vialonga/Vila Franca de Xira/Lisboa; Rua Virgínia Moura 2810-415 Feijó/Almada/Setúbal; Rua Virgínia Moura 2840-565 Aldeia de Paio Pires/Seixal/Setúbal.

Existe o “Agrupamento de Escolas Virgínia de Moura” em S. Paio, Moreira de Cónegos, no concelho de Guimarães.

Após o 25 de Abril de 1974, foi distinguida com a Ordem da Liberdade e recebeu a medalha de Honra da Cidade do Porto e a medalha de Honra do Movimento Democrático de Mulheres (MDM). No dia do seu 80º aniversário (1996), o Partido Comunista Português prestou-lhe homenagem no Palácio de Cristal, no Porto, nesta data foi apresentado o livro “Virgínia Moura, mulher de Abril. – Álbum de Memórias”. Em 1999, assinalando a passagem de 50 anos após a sua primeira detenção, foi inaugurado um busto da autoria do escultor Manuel Dias frente ao edifício onde funcionava a PIDE. Em 2008, dez anos após a sua morte, foi organizada uma exposição evocativa da sua vida no Centro Cultural de Rio Tinto (28/06 a 12/07).

 

9 – Espólios

Existe um espólio (existe proposta para um museu na sua terra natal) referido em: https://jornaldeguimaraes.pt/noticias/autarquicas-2021-be-defende-museu-virginia-moura-em-conde/ (Consultado em 25/11/2021).

 

10 – Elementos biográficos do percurso de vida, incluindo moradas: sumário

Virgínia Moura (1915-1998), foi pioneira na engenharia civil no feminino[3], curso que frequentou na

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto entre 29/11/1940 e 16/10/1948, ano em que se inscreveu na Associação dos Engenheiros Civis Portugueses (atual Ordem dos Engenheiros) (Coutinho, 2012). A sua mãe, professora do ensino primário, não casou. Virgínia manteve uma relação distante e esporádica com o seu pai, que partiu para a I Guerra Mundial pouco depois do seu nascimento. Esta situação familiar motivou discriminações e injustiças que começaram pela própria família. Até aos 14 anos viveu uma infância feliz e integrada na aldeia onde nasceu, S. Martinho do Conde (concelho de Guimarães), onde a sua mãe encontrou uma comunidade que até então pouco contacto tivera com a leitura e a escrita pelo que alfabetizava crianças de dia e adultos à noite. Virgínia estudou do primeiro ao quarto ano em Guimarães e, no final dos anos 20, devido a transferência da mãe, frequentou o liceu da Póvoa do Varzim. Aqui sentiu o peso da discriminação motivada pela sua situação familiar e por não ter educação religiosa.

Em 1930, enquanto estudante neste liceu “fez a sua estreia política, ao participar numa greve de solidariedade com os estudantes da Faculdade de Medicina do Porto” (Fonseca, 2005, p. 885). Passou, depois, a estudar no liceu feminino do Porto, altura em que conheceu o futuro marido António Lobão Vital (casaram em 1935), estudante liceal, futuro arquiteto, que a iniciou nos clássicos socialistas. Com 18 anos aderiu ao Partido Comunista Português, no mesmo ano participa na secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, que apoiava presos políticos de Portugal e Espanha. Ingressou na Faculdade de Engenharia do Porto, sendo a segunda mulher a licenciar-se nesse curso, nessa Faculdade; posteriormente, cursou Matemática e frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra. Escreveu, nos anos 40, “Cartas a uma mulher moderna”, onde apela à participação das mulheres na sua própria emancipação. Durante a Guerra Civil de Espanha apoiou refugiados espanhóis. Em finais de 1945, integrou a Comissão Distrital do Porto do Movimento de Unidade Democrática (MUD) fundado nesse ano. Participou no movimento de candidatura do General Norton de Matos à presidência da República nas eleições de 1949.

A 30 de dezembro de 1948 participou na Comissão Central da campanha que incluiu os representantes dos distritos, na qualidade de membro da Comissão Distrital do Porto, sendo a única mulher presente, talvez por ser desde a sua juventude “uma política profissional” (Janeiro, 2010, p. 5). Foi também a única mulher a intervir no “histórico comício da Fonte da Moura, que teria congregado uma assistência de 150 000 pessoas.” (Fonseca, 2005, p. 885). Posteriormente, apoiou ainda as candidaturas à presidência da República de Ruy Luís Gomes (1951), Arlindo Vicente (1958) e Humberto Delgado (1958). Participou, em 1953, no Congresso da União Internacional dos Arquitetos, em Lisboa, onde defende a colaboração entre arquitetos e engenheiros. Teve na cidade do Porto uma morada profissional, um escritório que partilhava com o marido, na Praça do Município, 309, 6º andar, Sala 6. Em 1969, “apresentou com o marido, uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro, sobre `Casas dos trabalhadores nos centros urbanos`” (Fonseca, 2005, p. 886).

Em 1969, concorreu às eleições para a Assembleia Nacional, na lista da Comissão Democrática Eleitoral do círculo do Porto. Colaborou, nos anos 40 e 50 em diversos jornais sob o pseudónimo Maria Selma (O Trabalho, O Diabo, Pensamento, Ecos do Sul) e cofundou com outros jovens intelectuais a revista Sol Nascente, “Quinzenário de Ciência, Arte e Cultura”, na qual o marido participou na direção. A atividade política levou-a 16 vezes à prisão, onde permaneceu um total de 6 anos; entre os episódios de violência esteve durante dez meses e meio numa cela de isolamento disciplinar.

Ainda em vida o seu percurso foi reconhecido; entre outras distinções foi agraciada com a Ordem da Liberdade. O seu nome figura na toponímia de três distritos e está associado a uma Escola no concelho onde nasceu. O livro “Virgínia Moura. Mulher de Abril – Álbum de Memórias, apresentado no dia do seu 80º aniversário, contém uma primeira parte com memórias da sua vida contadas na primeira pessoa, na segunda parte, textos da sua autoria, entre artigos e discursos, escritos entre 1936 e 1985, apresentando ainda dados biográficos e a reprodução de várias fotografias e documentos. Está em discussão a proposta de criar um Museu que reúna o seu espólio.

 

11 – Fontes bibliográficas primárias

AAVV (1949) – Às Mulheres de Portugal. Colectânea dalguns discursos pronunciados para propaganda da Candidatura. (Prefácio do Prof. Azevedo Gomes). Lisboa: Edição dos Serviços  Centrais da Candidatura do General Norton de Matos.

 

12 – Fontes bibliográficas secundárias

COUTINHO, Júlia (2012) – Mulheres Pioneiras em Engenharia Civil. «Faces de Eva», n.º 27. Lisboa: Edições Colibri, p. 51-67.

FONSECA, Teresa (2005) – Virgínia Faria de Moura. In CASTRO, Zília Osório; ESTEVES, João, dir.– Dicionário no Feminino. Séculos XIX e XX. Lisboa: Livros Horizonte, p.885-886.

JANEIRO, Helena Pinto (2010) – A questão feminina na campanha de Norton de Matos. In PAULO, Heloísa; JANEIRO, Helena Pinto, ed. – Norton de Matos e as Eleições Presidenciais de 1949: 60 anos depois. Lisboa: Colibri, p. 35-56.

ROLDÃO, Júlio [et al.] (1996) – Virgínia Moura, mulher de Abril: álbum de memórias. Lisboa: Avante!

 

13 – Fontes Iconográficas e Audiovisuais;

– Foto de Virgínia Moura perante placa “Rua do Heroísmo”: https://editorial-avante.pcp.pt/eventos/virginia-moura-mulher-de-abril

– Foto da capa do livro das Edições Avante! dedicado a Virgínia Moura: https://editorial-avante.pcp.pt/eventos/virginia-moura-mulher-de-abril

– Foto de Registo Criminal de Virgínia Moura no jornal Expresso: https://expresso.pt/politica/2015-07-19-Virginia

– Foto de Virgínia Moura, com o marido Lobão Vital  e Ruy Luís Gomes (ao centro) :  http://ruyluisgomes.blogspot.com/2005/10/virgnia-moura-ruy-lus-gomes-e-lobo.html

Virginia Moura, foto de perfil : https://www.correiodoporto.pt/do-porto/virginia-moura-1915-1998

– Condecoração de Virgínia Moura com a Ordem da Liberdade, pelo PR General Ramalho Eanes. Fotografia de Maria Salomé Vasconcelos : https://www.jornaltornado.pt/virginia-moura/

– Virgínia Moura e marido (no campo) https://debategraph.org/Details.aspx?nid=387740

– Virgínia Moura em foto de grupo:  https://debategraph.org/Details.aspx?nid=387740

– Virgínia Moura, Óscar Lopes, Rui Luís Gomes, Mário Cal Brandão, entre outros, durante um comício da oposição ao Estado Novo: https://debategraph.org/Details.aspx?nid=387740

– Virgínia Moura festeja na rua o 25 Abril de 1974: https://debategraph.org/Details.aspx?nid=387740

– Foto de busto de Virgínia Moura inaugurado em Lisboa: https://debategraph.org/Details.aspx?nid=387740

– Fotos (8) alusivas à Exposição sobre o seu percurso de vida, em 2008, no Centro Cultural de Rio Tinto (28/06 a 12/07): http://cravovermelho.blogspot.com/2009/02/da-exposicao-sobre-engenheira-virginia.html

13a) – Foto de Perfil

NOTAS:

[1] Info consultada a 25/11/2021 em: https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1004350

[2] Cf. Fonseca, 2015, p. 886.

[3] Virgínia de Moura é frequentemente apresentada como a primeira portuguesa a formar-se em engenharia civil. No entanto esse título poderá caber a Rita de Morais Sarmento, que terá concluído o curso a  30/07/1896 na Academia Politécnica do Porto, de que a FEUP é herdeira. A primeira mulher a licenciar-se neste curso na FEUP foi Maria da Conceição Marques Moura que o conclui em 21/08/1947, seguida de Virgínia de Moura (16/10/1948) e de Maria Emília de Araújo Martins Campos e Matos, que o conclui poucos dias depois de Virgínia a 28/10/1948 (Coutinho, 2012).

Inventariante / data:

Ana Ribeiro (anaribeirodasilva.mail@gmail.com) / novembro 2021

Este trabalho, para efeitos de citação:

RIBEIRO, Ana (2021) – Virgínia Moura. In BRASIL, Elisabete; LAGARTO, Mariana; RIBEIRO, Ana (2021) – Feminismos antes do 25 de Abril de 1974 (Portugal 1890-1949). Lisboa: FEM, p. 157-162.

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